A nova adega Alves de Sousa

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A estrada trouxe-nos da Régua até Santa Marta de Penaguião, ao longo de um vale ora contido e serpenteante, ora aberto e deslumbrante. Estamos no Baixo Corgo e aqui fazemos uma paragem, por via das dúvidas, já que esse edifício tão distinto e singular não tinha irrompido ainda de qualquer lugar, como viria a acontecer alguns instantes mais tarde… Falo-vos da nova adega Alves de Sousa.

Uma senhora apressou-se a identificar a invulgar construção: “uma coisa assim toda preta, não é? Seguem em direção a Vila Real e aquilo vê-se logo!…”; e eis que a adega surge finalmente, no lugar da Cumieira, depois de uma série de curvas quase tão retorcidas quanto as vinhas mais velhas da Quinta da Gaivosa. O bloco negro aparece sobranceiro numa encosta com declive acentuado, como que sentado a observar uma paisagem imensa, e carrega nas suas costas – literalmente – todo o peso da história da família Alves de Sousa, desde a adega original, a casa da família e as vinhas que dão origem àqueles que são justamente os vinhos mais afamados desta casa, vinhos como o Quinta da Gaivosa (o primeiro tinto produzido, em 1992), o Reserva Pessoal, o Vinha de Lordelo ou o Abandonado, qualquer um deles justamente considerados como referências desta região. Ter a possibilidade de visitar algumas destas vinhas na companhia de Domingos Alves de Sousa e do seu filho Tiago, enólogo principal dos vinhos Alves de Sousa, foi sem dúvida um enorme privilégio e faz com que todo aquele lugar se confunda com a história da família – e a nova adega é testemunho disso.

António Belém Lima, o arquiteto que concebeu aqui a sua primeira adega (tem mais duas em desenvolvimento), refere que a principal preocupação com este enorme “transformador de um produto natural” foi a sua implantação naquela parcela estreita entre a casa existente e a estrada, numa geografia e topografia que nos remete para o Douro sem o rio à vista. O edifício teria de ser compacto, e a escolha do material cerâmico preto para revestimento, que é a característica mais marcante do seu invólucro, pretendia neutralizar e “fazer desaparecer” este enorme bloco daquele cenário, transmitindo ao mesmo tempo uma noção de rigor absoluto, de um objecto fechado, enigmático… tal como quando se olha para uma garrafa por abrir, essa misteriosa ligação que criamos com o seu interior ainda desconhecido.

Ainda no exterior, somos conduzidos pela área da recepção das uvas, uma zona coberta e sombria de onde ocorre uma primeira “explosão” de paisagem aos nossos olhos, o que se vai repetindo pontualmente e de diferentes formas ao longo do interior do edifício. Daqui é já possível observar a estrutura orgânica que esteve na base desta moderna adega: um piso inferior reservado aos depósitos de inox e à sala de barricas, com uma temperatura ideal para o estágio do vinho, conseguida através da sua ancoragem abaixo da cota do terreno; esta sala acrescenta um tecto de madeira ao betão aparente que é usado em toda a adega, e a sua configuração comprida e estreita, com alguma extensão, faz também dela uma “sala de conto de histórias”, ideia retida pelo arquiteto após as primeiras conversas com Domingos Alves de Sousa, que através de muitas histórias e peripécias o ia acompanhando neste difícil processo de perceber e conceber uma adega, iniciado em 2008 com os primeiros esboços e finalmente construído entre 2013 e 2015.

No piso intermédio, destaca-se o laboratório, que controla esta imponente “nave” quase como a torre de um navio. Toda esta área tem uma luz generosa mas controlada, conseguida através de dois enormes lanternins virados a norte, que sobressaem no perfil exterior do edifício. Seguindo a ideia de pôr em contacto as várias etapas de feitura do vinho, estão aqui uns tanques de pisa a pé mecanizada (concebidos pelo próprio Tiago Alves de Sousa), as zonas de engarrafamento e armazenamento, e ainda um espaço rectilíneo todo em madeira de exposição e venda dos vinhos, com um enorme e belíssimo mapa da região demarcada do Douro, onde podemos localizar outra das suas quintas emblemáticas, de onde saiu aquele que foi o seu primeiro vinho engarrafado com marca própria: o Quinta do Vale da Raposa branco, de 1991 (até esta altura toda a produção era vendida para vinho do Porto).

Já no piso de cima somos surpreendidos com uma sala de provas orientada a Norte mas também para a adega original, com as vinhas da Quinta da Gaivosa em pano de fundo e um magnífico cedro que nos informa do tempo… Subindo ainda até à cobertura do edifício é-nos proporcionada uma visão total de todo o sítio, onde voltamos a sentir o rigor do clima exterior, mas também a satisfação imensa que é poder desfrutar de algo tão valioso depois de um trabalho árduo, conseguido através de inúmeras tomadas de decisão. Como num vinho, ali sorrimos e brindamos, contemplando agora todo um universo de aromas e sensações que bebemos através dos nossos copos.

ALGUNS DADOS TÉCNICOS DA NOVA ADEGA

> Área total: 1800 m2;
> Capacidade de vinificação de vinhos tintos: 250.000 litros em depósitos de inox;
> Capacidade de vinificação de vinhos brancos: 50.000 litros em depósitos de inox;
> Sete lagares de 3.000 litros com pisador elétrico;
> Capacidade de armazenamento: 335.000 litros (42 depósitos de 100 a 20.000 litros), como complemento na adega antiga há espaço para 315.000 litros;
> Estágio: duas salas de barricas com capacidade para 500 barricas de 225 litros (na adega antiga faz-se o estágio de vinho generoso em 200 cascos de Vinho do Porto).

Texto: Marco Lourenço / Fotografias: D. R.

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