Da “bejeca” à cerveja

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> texto Bruno Aquino > fotografias D.R.

Ensolarada tarde de Verão, a canícula aperta e a sede também. Bebida de eleição? Uma cerveja, claro. Fresca, de corpo leve, pouco alcoólica, com boas notas do lúpulo e do seu amargor. Final da noite, jantar com uns amigos num restaurante da moda. O que pedir para acompanhar um bom prato de carne ou de peixe? Cerveja, certamente! Mais encorpada, com aromas e sabores mais marcados, na procura de uma harmonização perfeita com aquilo que o chef nos propõe.

O sucesso da cerveja reside na sua versatilidade, na capacidade de ser moderna ou tradicional, formal ou descontraída, suave ou intensa. A cerveja é um produto milenar, que ainda assim soube evoluir, renovar-se e, desse modo, continuar a ser uma das bebidas mais consumidas do mundo.

E, não obstante o simples prazer que beber uma cerveja nos pode suscitar, nada impede que olhemos para a mesma de uma forma mais cuidada, com atenção às suas características organolépticas, à forma como se desenvolve no copo, à sua cor e aos aromas que exalam do seu corpo. É, se quiserem, deixarmos de lado a “bejeca” e olharmos para a cerveja com a nobreza que ela merece.

Nesse âmbito, é frequente que a primeira impressão com que ficamos de uma cerveja nos seja transmitida pela sua aparência, isto é, a sua cor, a transparência e a espuma, sendo esta julgada pela cor, duração ou textura. Diz-se que “os olhos também comem” e no caso das cervejas essa máxima é extremamente relevante. Não impede, naturalmente, que cervejas menos bonitas no copo sejam surpreendentemente agradáveis no nariz e na boca. Todavia, se se puder agregar aparência com aroma e sabor, quem dirá que não?

Seguidamente, o nosso foco centra-se no aroma da cerveja. Este é influenciado pelos ingredientes utilizados na produção, sejam eles os maltes, os lúpulos, as leveduras, outros ingredientes (cacau, abóbora, canela, basicamente tudo o que o cervejeiro imaginar) e mesmo subprodutos da fermentação. O aroma está profundamente associado a processos mentais, nomeadamente de ligação a situações passadas. Quantas vezes tivemos a incapacidade de nomear um determinado aroma e depois lembramo-nos de uma situação e conseguimos lá chegar? É universal a nossa repulsa a aromas de carne podre, a vomitado, enquanto toleramos ou apreciamos aromas doces. É importante, diariamente, ir treinando os sentidos, cheirando os locais por onde passamos, os ingredientes, tentando identificar o que possa ser.

Já o sabor pode ser influenciado pelos maltes, lúpulos, outros ingredientes e subprodutos da fermentação e também leva em consideração o equilíbrio e o retrogosto, por exemplo. A nossa língua tem milhares de recetores de sabor, mais os que se encontram no topo da boca, na epiglote, esófago, nasofaringe, lábios, bochechas, etc. Cada um é um sensor que responde a um determinado tipo de estímulo químico. O sabor evoluiu de modo a dar-nos pistas importantes sobre as coisas boas e más que nos rodeiam, para nos guiar em relação aos alimentos com bons nutrientes e para os que são eventualmente venenosos, comunicando essas apreciações ao cérebro.

Finalmente, analise-se o palato, ou seja, a sensação física na boca, conforme influenciada pela temperatura, corpo, carbonatação, calor, viscosidade, untuosidade, adstringência, final curto ou prolongado. Muitas delas são chamadas sensações trigeminais, que derivam do nervo que temos na face.

Dê-se ou não atenção a todos estes pormenores, o mais importante é podermos usufruir de todas as emoções e impressões que uma boa cerveja nos transmite. Portanto, à vossa!

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